JE SUIS 1984!

O Jornal Ibiá, gentilmente, abriu um espaço às quintas-feiras para eu colocar minhas parcas ideias. Começamos hoje. Espero estar à altura da confiança e da gentileza depositadas. A coluna de hoje:

JE SUIS 1984!

Uma dos diferenciais de George Orwell em “1984” (lançado em 1949) foi colocar o regime totalitário que “tudo sabia” sobre todos e “tudo reescrevia”, não como líder “pai”, como fazem religiões e regimes políticos há centenas de anos. Colocou-o como irmão, o Grande Irmão. Fiscalizando e controlando os menores atos do cidadão, mas num pé de igualdade com o oprimido. O romance tornou-se um dos símbolos literários da opressão e das políticas antidemocráticas. Depois, o ano de 1984 chegou de verdade, mas os governos ainda se valiam dos velhos métodos: força, repressão, medo, tortura. Só um pouco mais adiante é o que o futuro pregaria uma peça em Orwell. O “Grande Irmão” chegou, mas, surpreendentemente, o olhar sobre tudo e todos não veio de um governo opressor, mas sim do próprio cidadão. A tecnologia, através das redes sociais, nos deu o poder de bisbilhotar a vida alheia na boa, com o consentimento de todos. Não há revolta não; muito pelo contrário, temos o maior prazer de mostrar tudo. Somos todos “Grandes Irmãos” entrando na casa de todos, na vida de todos, nas mazelas de todos. Sim, há aqueles que escancaram suas mazelas! Suas e dos outros, como as velhas fofoqueiras das novelas, debruçadas nas janelas virtuais observando a vida passar para poder falar dela. Moralistas de plantão, Felicianos fiscalizam inclusive o que cada um faz com seu ânus, as escolhas sexuais, o “mau comportamento” de seus desafetos para usar como chantagem ou para destruir a imagem pública. Não existem mais os pruridos de privacidade. Nós mesmos os banimos. George Orwell não previu que nosso hedonismo intrínseco seria a máscara indelével de uma alegria e de uma felicidade constantes, mesmo que falsas. E porque pode ser deletado ou editado, também pode ser reescrito. “1984” também não previu a imbecilidade de quem ganhasse liberdade para ver e dizer o que bem entendesse. George Orwell via o povo de maneira utópica, sem perceber que ele poderia ser tão cruel consigo mesmo e com seus iguais, como seus opressores. É verdade que as redes sociais democratizaram alguns debates. A política por exemplo. Revoluções foram feitas através das redes. Mas também é verdade que elas, as redes, permitiram o afloramento de alguns monstros, o monstro da futilidade, o da mentira espalhada como verdade, o da execração pública sem provas e sem critérios. O monstro da espetacularização do grotesco e da degradação humana. Perfis também querem audiência.

Hoje, Mark Zuckemberg sabe tudo sobre nós e inclusive vende estas informações. Entregamos este conhecimento sobre nós, sobre nossas virtudes e desgraças, de graça, só pelo prazer de todos os dias poder xeretar. Não precisou sequer de um governo totalitário para impor tal medida. Foi só acender a fogueira de nossas vaidades. Orwell e Zuckemberg se interligam. Só que Orwell via o povo com pureza, como um ente oprimido pela força. Zuckemberg foi mais realista: viu que a opressão humana está em cada um de nós quando nos despojamos da Democracia que deveria nos nortear. Não nos importamos em ser controlados, desde que pareça que este controle pertence a nós. Em breve haverá um algoritmo que calculará nossas tendências enquanto massa baseados nas informações que jogamos no Facebook. Decisões políticas serão tomadas a partir delas e caminharemos por sendas decididas por uma equação matemática.

Je suis 1984! Todos nós!


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